terça-feira, 7 de dezembro de 2010

POR QUE A MORTE? Guerra carioca e a contradição cristã

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Não há nada mais natural que a morte, na vida da terra. Tudo que um dia nasceu, morrerá. Nos meus 27 anos de idade em profunda vivência cristã aprendi que a morte é a única certeza. Todos nós estamos condenados a morte. Mas defendemos sempre a vida, e em plenitude.
Pode parecer um contra senso, uma contradição. Mas é simplesmente a vida. Quem está vivo não quer morrer, salvo algumas exceções como os suicidas. Um das lembranças da minha infância foi quando minha tia mais nova voltou para o Brasil após vários anos no Canadá e suicidou-se em Macaé. As doutrinas cristãs dizem que o suicídio é um pecado gravíssimo, porque interrompe a vida, e conseqüentemente a vontade de Deus.
Nas últimas eleições brasileiras, grandes setores da Igreja Católica e de outras Igrejas Cristãs saíram do armário carcomido pelo mofo e fedendo a naftalina para gritar contra a candidata do Partido dos Trabalhadores colocando nas costas dela e do partido que surgiu nos fundos das sacristias e nas portas de fábricas a defesa intransigente do aborto. Em defesa da vida, era a posição dessas alas, que quase nunca discutem política.
A defesa da vida, encampada por esses setores teve muito eco nas populações religiosas brasileiras, e consequentemente um amplo poder de convencimento. Vide que a candidata do governo Lula que mesmo no período eleitoral batia os 80% de aprovação, teve de ganhar no segundo turno.
Mas, a contradição volta à tona quando, aqueles que fizeram eco à defesa da vida de agosto a outubro, no período eleitoral, um mês depois celebrava a “espetacular” operação no Complexo do Alemão, Rio de Janeiro. É uma contradição do cristianismo.
O aborto não pode ser regulamentado porque mata inocentes. Mas a polícia e o exército com caveirões e tanques de guerra podem matar inocentes. As mortes de pessoas de bem, moradores de favelas são efeitos colaterais de uma guerra permanente, é o mal menor. Tá aí o começo da contradição.
Na cena de dezenas de pessoas sem camisa e de chinelo correndo no alto do morro, na mata que liga Vila Cruzeiro e o Morro do Alemão que foi transmitida ao vivo pela Rede Globo de Televisão e outras emissoras do “latifúndio brasileiro de comunicação” vi muita gente defender extermínio coletivo daquelas pessoas.
Não estou aqui defendendo aborto nem traficante, nem criminoso. Se nós cristãos condenamos o suicídio porque interrompe o plano de Deus; se condenamos radicalmente o aborto, porque mata alguém que você não sabe quem será; se defendemos vida em abundância a todos; se acreditamos no perdão e na misericórdia divinos, e defendemos isso e por isso confessamos todos os nossos pecados mais pecaminosos, como podemos defender a morte?
Durante uma semana inteira, o povo brasileiro aplaudiu de pé o filme “Tropa de Elite III”. Inclusive a Ana Maria Braga, em seu café da manhã perguntou ao José Padilha, diretor do filme em sua primeira e segunda parte, se ele não estaria preparando o terceiro com essa nova situação.
Esquecemos de um passado muito recente. Em 2007, por ocasião do 6º Encontro Nacional de Fé e Política, eu estava em Nova Iguaçu quando Frei Betto sugeriu ao governador do Rio de Janeiro que construísse estátuas do Hitler em praças públicas. O governador do estado, que foi reeleito com cerca de 70% dos votos, menos o meu, havia declarado aquela manhã que defendia o aborto para mulheres moradoras das favelas porque eram “fábricas de bandidos”. O governador não conseguiu aprovar o aborto, mas está fazendo com ajuda da sua delicada polícia com símbolo de caveira. Logo no primeiro dia de operação morre uma menina de 15 anos com tiro nas costas, em casa, vendo Orkut, combinando com amigas de ir a festa de 15 anos de outra colega. Lembram do desespero daquele pai?
Uma vez Jesus disse que devemos perdoar 70 vezes 7 vezes, o que corresponderia ao infinito de vezes e também ensinou que se esbofetearem a face devemos dar a outra. Ora, o cristão não é quem se aponta como a imagem a semelhança de Cristo, não é aquele que tenta imitá-lo, mesmo com todas as dificuldades que isso implica? Quando uma mulher, considerada prostituta seria apedrejada na rua até a morte, Jesus interveio e desafiou os algozes. “Quem nunca cometeu pecado, que atire a primeira pedra”.
O Brasil é um país que não tem em sua constituição a pena de morte e nem o aborto. A lei dos homens e a lei de Deus seguindo no mesmo sentido, o da preservação da vida em toda a sua manifestação. Assim, se é possível justificar a morte de seres humanos que cometem crime devido ao falido sistema prisional, é igualmente possível justificar o aborto devido à falência dos hospitais brasileiros.
Por fim, estamos todos condenados a morte. É preciso trazer Jesus para o momento atual e imaginar como se comportaria. Estaria morando numa favela e novamente correndo risco de vida desde o nascimento e, inocente morto pelo Caveirão da época. Jesus morreria igual, sem culpa alguma, como disse Pilatos.
Não se deve amar o pecado, mas o pecador. Isso que Cristo nos ensinou. O crime deve ser pago com punição, mas a vida somente Deus pode tirar. Ninguém está livre de viver a aflição de morar em um local com larga atuação da criminalidade e total ausência do Estado, e muito menos de ter filhos, netos, irmãos, parentes envolvidos em alguma atividade marginal.
O dever do estado é punir e reintegrar a sociedade porque matar ele já faz quando nega saúde, educação, emprego, saneamento, moradia digna, condições reais de cidadania.

2 comentários:

  1. Real e pesado. O que pesa de um lado alivia de outro.

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  2. Gostei do seu texto! Retrata a situação que estamos vivendo nos dias de hoje. Nós temos que protestar contra essas contradições que vivemos e que nega o Evangelho de Cristo. Aliás a grande maioria das lideranças católicas que "defenderam" a vida e foram contra a Dilma, acusando-a de ser a favor do aborto, estão comprometidas com as elites. Daí tanta contradição, pois antes "defenderam" a vida e agora defenderam a ação militar que ao combater a criminalidade, atinge o povo humilde e trabalhador. As elites bateram palmas!

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